quarta-feira, 29 de maio de 2013

A Homenagem do Dr. Agostinho Neto





Carlos Kandanda

A homenagem do Dr. António Agostinho Neto pela União Africana, na altura da celebração do 50º Aniversário da sua fundação, no dia 25 de Maio de 2013, é bem-vinda e louvável por todos nacionalistas que dedicaram-se de corpo e alma ao processo da descolonização do nosso Continente, berço da Humanidade. 

Sem dúvida, este procedimento histórico da União Africana, neste caso específico, da homenagem do líder angolano, desta estatura intelectual, cultural e política, reúne consenso no seio dos três Movimentos de Libertação Nacional que combateram, com as armas na mão, contra o Colonialismo Português. Bem-haja!

Este gesto da União Africana, de valorizar a sua História e de reconhecer os feitos dos seus filhos e filhas que deram o seu melhor pela liberdade dos Povos Africanos, deve ser o ponto de viragem para uma cultura inclusiva, patriótica e pan-africanista, assente na paz, na unidade, na igualdade, na fraternidade e na justiça.

O reconhecimento dos Combatentes de liberdade do Continente Africano deve partir do princípio do mérito e de imparcialidade, sem discriminação nenhuma fundada nos preconceitos de interesses políticos e económicos, veiculados pelos regimes no poder, que se instituíram em Clubes partidários. 

A dinâmica da descolonização da África passou por caminhos sinuosos e bastantes complexos que embocaram em contradições internas no seio das formações políticas independentistas, com um certo grau de antagonismo. 

O processo da descolonização, pelas Potências Europeias, em muitos casos, não seguiu os trâmites legais que conferisse uma ampla estabilidade política e social na altura das independências. Os factores históricos, étnico-cultural e geopolítica exerceram uma maior influência sobre a escolha antecipada de novos governantes. 

Há casos específicos, como Angola, em que o Movimento das Forças Armadas (MFA) de Portugal apostara antecipadamente no MPLA, antes dos Acordos de Alvor, devido o factor racial do seu núcleo dirigente, muitos dos quais possuíam a nacionalidade portuguesa e eram membros efetivos das diversas organizações políticas portuguesas do então, como o Partido Comunista. Pondo de parte a FNLA e a UNITA cujas características socioculturais eram, em grande escala, negro-africanas, que correspondiam às aspirações profundas da população indígena. 

Esta caracterização básica do MPLA, de xenofilia, que lhe distingue dos outros partidos africanos, deve estar na origem da reticência da União Africana de incluir tardiamente a figura de Dr. António Agostinho Neto na Galeria dos grandes nacionalistas africanos, em Addis Abeba, na Sede da União Africana. 

Além disso, o holocausto de 27 de Maio de 1977, que tivera dizimado friamente centenas de milhares de angolanos inocentes manchara bastante a imagem do Dr. Agostinho Neto, cujas repercussões nefastas mergulharam o país numa guerra-civil sangrenta e prolongada, sob o sistema político mono-partidário e autoritário que permanece constante até hoje. 

Em seguida, tem sido notório constatar que, desde a independência de Angola, em 1975, a diplomacia angolana tem estado mais virada para fora do Continente Africano, basicamente para Portugal, Brasil, Espanha, Rússia, Cuba e mais tarde, para China. Só agora, muito recentemente, que se verificam algumas iniciativas diplomáticas tímidas, sem o intercâmbio económico e cultural de realce com outros Países Africanos. 

No seio da Comunidade Africana, por exemplo, Angola destaca-se como o único País que perdeu a cultura e a identidade africana e cujas autoridades políticas incentivam e dinamizam o processo da desvalorização e subalternização dos valores africanos.  

Portanto, a homenagem do Dr. Agostinho Neto é o gesto muito significativo que visa, em parte, integrar culturalmente Angola nas Comunidades Africanas, ampliando e intensificando o espaço de intercâmbio sociocultural e económico com outros povos africanos, a fim de estancar o fenómeno de alienação cultural em que este país se encontra envolvido.

O Pan-africanismo e o Renascimento Africano, o lema deste Jubileu, são grandes SONHOS por realizar, cujos desafios são titanescos. Isso acontece na altura em que a Africa é apanhada novamente descalça, sem condições necessárias para fazer face à expansão chinesa em Africa. Embora esta expansão seja de caráter global, não visando apenas Africa, mas a sua visão estratégica é mais ampla e constitui uma prioridade fundamental da política externa desta Potência Asiática. 

Durante Meio Século da existência da Organização da Unidade Africana (hoje União Africana) o nosso Continente não foi capaz de conquistar passos significativos nos domínios cruciais, tais como: da tecnologia, da industrialização, da construção de infraestruturas, da edificação de instituições fortes, da defesa e segurança, da segurança alimentar, da formação de quadros técnico-profissionais, da arrecadação de fundos e sobretudo, da boa governação. 

Constata-se que, neste respeito, a movimentação da China pelo mundo, apoia-se essencialmente nos factores financeiros, comerciais, tecnológicos, científicos, energéticos, infra-estruturais e agroindustriais, que são necessidades críticas e prementes da África contemporânea. 

Esses factores essenciais da cooperação internacional, nesta Era da Globalização, servem de força motora da expansão política e militar que está subtilmente disfarçada e encoberta. Por isso, querendo ou não, a África não terá outras formas de se libertar desta condição subalterna de sujeitar-se aos condicionalismos das potências industrializadas no processo da sua integração global no mercado internacional.  

Pois que, analisando bem a conjuntura mundial, nota-se que, embora haja algumas assimetrias entre as regiões do mundo, neste respeito, mas a África ficou muito para trás. Estamos já na Era da alta tecnologia cibernética e nuclear, em que as regiões do mundo procuram a autodefesa neste domínio. 

Enquanto, nós em Africa, não possuímos as capacidades rudimentares para que, nós próprios, possamos transformar as nossas matérias-primas, que são convertidas em nossas importações, de valores acrescentados, depois de serem transformados em produtos acabados pelas economias industrializadas.

Hoje, a África se encontra nessas condições desvantajosas, após Meio Século da existência da União Africana, com intenções de reviver o Pan-africanismo e o Renascimento Africano. 

Pela experiência já vivida, seria irrealista contar com uma política de boa vontade das potencias industrializadas, no caso especifico da China, em nos oferecer, de mão beijada, as condições necessárias para tornarmos autónomos e eficazes de desenvolver as tecnologias avançadas e know-how que venham servirem de sustentáculos para materializar os grandes SONHOS do Pan-africanismo e de Renascimento Africano, na Visão originária dos Cofundadores.

Isso não quer dizer que, a África não tenha quadros capacitados capazes de erguer o Continente ao nível exigido para que esteja a altura de competir, em pé de igualdade, com as outras regiões do Mundo. Porém, os grandes desafios da África, nesta época, residem essencialmente na ausência de Lideres de peso, carismáticos e clarividentes, que estejam entregues totalmente ao bem-estar dos Povos Africanos.

Em função disso, a África de hoje, corrupta na sua caracterização geral, não tem a Visão de Estado e da Identidade Nacional, enraizada nos valores do Pan-africanismo que sirvam de bússola da Agenda Governativa. A Visão mesquinha político-partidária dos Chefes actuais do Continente impede a construção de Instituições Nacionais fortes e sustentáveis que pendurem no tempo, que congreguem todos os segmentos da sociedade e que distribuam as riquezas com justiça e solidariedade.

Logo, a ausência de Instituições Nacionais sólidas e credíveis cria a incapacidade de lidar com os desafios internos, fazendo recurso às Potências Estrangeiras que aproveitam-se disso para estabelecer e reforçar a sua Autoridade. Como consequência disso, enfraquece e mina a Soberania dos Estados Africanos que transformam-se em semicolónias estrangeiras ou em regimes satélites. Nos casos extremos, a exemplo dos Grandes Lagos e do Corno da África, tem gerado o estado de caos, de anarquia e de ingovernabilidade. 
 
Nesta mesma senda, os outros factores nocivos têm sido o tribalismo, o racismo, o regionalismo, o nepotismo e o fundamentalismo que possuem dispositivos fortes de fragmentação das Sociedades Africanas em grupos de interesses diversos. Na medida em que se intensifica e alarga o leque das assimetrias sociais e regionais, em termos de pobreza, miséria, fome, exclusão e intolerância, desenvolvem-se rapidamente em instabilidades políticas, sociais ou inter-religiosas.  

A corrupção, o suborno e a fuga de capitais são outros factores negativos que estão intrinsecamente ligados às deficiências crónicas de má-governação, que tornou-se uma marca indelével do Continente Africano. O sistema oligárquico, de cunho autocrático, que prevalece em muitos Países Africanos, constitui uma das origens dos conflitos armados e de instabilidades políticas, sociais e económicas que assolam actualmente a maior parte das Regiões Africanas.

Estes são uns dos aspectos fundamentais que travam constantemente a marcha do Continente Africano e jogam a favor de outras Regiões do Mundo que olham para África como sendo a fonte mais rica das matérias-primas e dos lucros fáceis. Portanto, isso torna-se urgente para que a África inicie a longa marcha de buscar novas lideranças, com uma Visão inovadora, capazes de empreender reformas profundas do sistema político-económico, que se adapte facilmente à realidade do Mundo actual. 

De qualquer forma, isso passa necessariamente pela formação de novas elites de jovens intelectuais (libertos de actuais culturas políticas desnorteadas e de preconceitos antidemocráticos) que estejam imbuídos dos Valores Culturais Africanos, assentem nos Factores Universais da Globalização e da Integração Multilateral. Caso contrário, África não será capaz de lidar com a dinâmica crescente da movimentação chinesa em África como prioridade da sua estratégia global. 

Por outro lado, essa nova geração de Líderes Africanos terá que dedicar-se inteiramente à industrialização, modernização, estruturação e integração global das Economias Africanas no sentido de enfrentar, com maior eficácia, a tentativa de partilhar novamente o Continente Africano em esferas de influências, onde a pilhagem de suas riquezas será mais evidente que nunca. 

Em tudo isso, sem o desenvolvimento industrial da agricultura, em grande escala, para erradicar a fome, a pobreza e a miséria, o Pan-africanismo e o Renascimento Africano continuarão como SONHOS ADIADOS.

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